terça-feira, 18 de abril de 2017

#Pintura_dia_6

"Eusa" no Coliseu.
As bombas tinham cessado e na cidade ainda a fumegar emergia a alegria de uma sala de espetáculos. Casa cheia, lugares ocupados, os de pé e os sentados, mesmo os que mal deixam ver o palco. As cadeiras rangem ao menor movimento, o chão aqui e ali remendado atira-nos pequenos protestos metálicos à passagem dos últimos espetadores. Nos corredores dos camarotes, acima das nossas cabeças, de quando em vez um trote apressado, talvez soldados atentos ainda de dedo quente e botas ligeiras. Nas costas o ar corre como se houvesse uma porta aberta por cada cadeira. Ao fundo do palco um homem a tentar não falar, mas os seus dedos sem conseguir parar, num martelar enrolado, crescente, melodioso (mel + odioso, que junção estranha para uma palavra tão doce, antes fosse mel + amável, onde no final talvez sem acento ficasse melamavel). Atrás de Yann, o seu nome, uma fita rola e depois uns sons a servir-lhe de fundo ao pianar. Do lado direito de Thiersen, seu apelido, dois minúsculos pianos de brincar onde ele toca a sério para descansar do piano grande e do violino onde rasga meia dúzia de notas de vez em quando. Uma coisa de cada vez, analogicamente, sem camadas, sem maquilhagem, como quem come fruta das árvores ainda com casca, os pingos a escorrer da boca e a brisa a arrepiar o espírito. Voltou talvez três vezes a ver se calava as palmas até que o dono da sala nos calou a todos com as luzes acesas. Afinal não foi um concerto no pós II Guerra, foi mesmo em 2016, ali no Coliseu, uma espécie de fantasma ignorando a morte. De resto as centenas de pequenos ecrãs acesos, durante a escuridão melancólica do alinhamento, não se cansaram de me lembrar da época em que vivo. Ao contrário de quem gravou o som e a imagem e partilhou a sua estupenda experiência nas timelines mundiais, eu terei de recorrer apenas à minha memória. Yann Tiersen Live Solo Tour

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

#Pintura_dia_5

"Lê Séneca", dizia o António Feio ao José Pedro Gomes, ou as suas personagens uma à outra. António Feio no seu modo 'estóico' de encarar o infortúnio com um sorriso cândido, não fez mais que aumentar a pressão das veias do seu amigo, furioso pela sua aquisição de um quadro branco com riscas brancas, um suposto ícone de contemporaneidade. E na altura, a peça chamava-se "Arte", ri-me com a frase, encostado à minha rica cultura de aluno de belas-artes, pois mandar alguém furioso ler um filósofo é uma tirada já de si engraçada e é obrigatório rirmo-nos de piadas com nomes de autores consagrados. Não li Séneca mas falaram-me dele, mais concretamente o Alain de Botton, e então revi a peça no Youtube até encontrar a tirada do Feio e perceber porque me tinha rido naquela altura. Confere, foi mesmo engraçado.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

#Pintura_dia_4

A desenhar estou. Para um livro que há de ser e uma casa onde mora uma das pessoas da história, onde o velho problema da simetria. E se não fosse simétrica? É como os rostos que tanto me aborrece desenhar, só me apetece desenhar a metade de cada coisa que se desdobra. É inútil, se as coisas como as pessoas raramente chegam à plenitude porque não somos e as coisas também, apenas a sua metade e, assim talvez mais inteiras? Ou pelo menos mais singulares. A metade das coisas talvez seja uma boa coisa de perseguir.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

#Pintura_dia_3

Hoje entreguei ao meu amigo CC, aniversariante em exercício, um desenho/cartoon brincando com duas das suas atividades favoritas e que não vêm ao caso. O que vem é o processo: quis fazer um desenho e angustiei-me, risquei, fui para a mesa de luz e angustiei-me, parei, guardei-o para o dia seguinte (levantando a possibilidade da sua destruição). Afinal bastaram mais 10 minutos para o terminar. No total perto de meia hora com a preciosa companhia de uma caneta Sakura 0.1, áspera e agressiva. Depois de acabá-lo hesitei em oferecê-lo mas acabei por fazê-lo e foi bom porque ele ficou contente. Esta sensação de insuficiência tem de se transformar num motor e não ser esta parede de desânimo. Tenho de me habituar a desenhar muitas coisas más, sujas, intragáveis, condenáveis e incómodas. Um desenho, pintura ou percurso plástico com arestas, daquelas de ferir se tiver de ser. Obrigado CC pela motivação!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

#Pintura_dia_2

Ainda estou no dia um mas ninguém precisa de saber. Quero só falar dos livros que comprei outra vez, deles, o mais importante foi "As Núpcias de Cadmo e Harmonia" de Roberto Calasso. É assim com alguns livros de que gosto, empresto-os, esqueço-me do beneficiário ou este esquece-se de mim, ou as duas coisas (o que faz uma daquelas circularidades que tanto me entusiasmam). E depois, porque inscritos na memória ou um título, ou uma frase, ou uma sensação, lá vou eu armazenar o novo exemplar na prateleira, não sem antes conversarmos um bocado, relê-lo todo ou em parte e depois passá-lo a alguém que me apeteça e que promete sempre devolvê-lo. No fim de contas, se o livro vale a pena, fico contente por contribuir para a saúde financeira do autor.

#Pintura_dia_1

Não consigo escrever, sendo assim vou pintar escrevendo ou o inverso, desde que um acto não viva sem o outro. Quero saber o que fazer com uma écfrase, com mais certeza do que o Vasco Graça Moura (não esquecer comprar livro outra vez e de falar sobre comprar livros outra vez). Interessam-me estas 'circularidades' ou simplesmente as coisas que se agarram umas às outras, como acontece com os meus interesses e leituras. Um livro sobre a história do fascismo que se agarra a um tratado de estética de Hegel que se agarra aos textos de uma senhora escandinava (que ganhou um prémio Nobel da literatura na aurora do século XX, não esquecer de escrever o nome dela nos próximos dias, a minha memória é assim, nada a fazer), dizia eu que os assuntos e os livros e as ambições se agarram umas às outras e que o que é preciso é não ficar baralhado. Dos textos e teorias o que me interessa é passar o meu tempo bem acompanhado, nenhum objetivo maior me acompanha, tirando um ou outro debate com amigos. Isto: a Cultura como uma entidade que me faz companhia, uma espécie de amigo invisível ou imaginário, sempre disponível (os mais crescidos chama-lhe deus para disfarçar).